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A vida nômade como forma de fugir das autoridades.

É bastante comum na documentação sobre quilombos em Minas Gerais, os relatos de que os quilombolas atacavam as fazendas roubando gado. Guimarães cita algumas Cartas Patentes de Sargento-Mor do Mato, concedidas em função dos prejuízos que as pessoas vinham sofrendo. José da Guerra Chaves foi um dos que conseguiu uma destas Cartas alegando estar tendo prejuízos com as “...mortes de seus bois e porcos praticados pelos quilombolas...”1

O mesmo aconteceu com o Tenente Auxiliar Francisco José Soares em 20 de julho de 1793. Ele recebeu a autorização para atacar um quilombo nas imediações de suas terras devido à reclamação feita de que estava sofrendo “...grave prejuízo nas suas canas que atualmente as estão devorando os negros fugidos...”2

Estes grupos mantinham-se de roubos, de trocas e de vendas com donos de armazéns ou mesmo com garimpeiros clandestinos, permanecendo juntos apenas por determinados períodos, podendo se separar a qualquer momento e formar novos grupos. O que os mantinham unidos eram as necessidades do momento. A própria mobilidade fazia com que durante as andanças, novos integrantes se juntassem e outros saíssem do grupo em busca de um quilombo maior e mais estável ou em busca de uma nova região para viver. Portanto, eram populações formadas basicamente por pequenos grupos de homens armados e que ficavam pouco tempo em um mesmo local.

No ano de 1770 “... Foram apreendidos em um quilombo do Rio do Pinto... vários negros que se achavam aquilombados que em número eram 14...”3

No ano seguinte, quatro quilombolas invadiram a casa de José Pereira Lima, roubaram-lhe e mataram uma sobrinha. Imediatamente, o governador Valadares ordenou uma expedição para prender estes e outros quilombolas. Dos quatro, apenas um foi preso.4

A mobilidade era para estes grupos, uma de suas maiores defesas. Como eram formados por poucas pessoas, portanto, com poucas armas, sem proteção de trincheiras, fossos ou estrepes, a melhor solução em caso de um provável ataque era a retirada para outras paragens. O tamanho destes grupos também agia como facilitador desta mobilidade, uma vez que conseguiam sem maiores dificuldades esconderem-se nas matas.

Sobre esta mobilidade, os documentos seguintes são ilustrativos: “... me dá parte de ter aprontado gente para invadir o Quilombo... porém se frustrava esta diligência tanto pela demora do dito capitão como pelo mesmo devagar ao que havia ... os negros aquilombados que estes mudaram de sítio...”5

Em 1770, numa carta relatando o insucesso do ataque a um quilombo, o Tenente Caldeira é acusado pelo Governador de não ter tido habilidade suficiente para combater o quilombo e, como conseqüência, os quilombolas “... mudaram de sitio, e aqueles deram para as Campanhas retirando-se as suas casas...”6

A situação encontrada por Pamplona era a mesma. Em uma de suas cartas ao Conde Valadares, reclamava das “... muitas desordens que causam naquelas paragens povoadas os negros que fogem de umas para outras...”7

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: A procura dos quilombos e as suas diversas estruras.
Texto Anterior: Os capitães do mato e rentabilidade de seu negócio.

1. Guimarães, Carlos magno. : Uma negação da ordem escravista. São Paulo: Ícone, 1992 . p. 45
2. Idem. p. 42
3. APM SC 178 p. 10
4. APM SC 177 p. 190
5. APM Cod 177 p. 67
6. APM SC 177 P Cod p. 67v.
7. Arquivo Conde de Valadares. Biblioteca Nacional , Seção de manuscritos. Cod. 18,2,3 doc. 7

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