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O velho boiadeiro relembra o velho sertão mineiro.

... foi numa das últimas viagens que fizemos lá para as bandas do Triângulo Mineiro. Meu patrão, não me lembro sob que desculpa, resolvera desviar-se do caminho habitual e tomar o que passava por esta fazenda. Era no tempo das chuvas e por mal de meus pecados anoiteceu quando no encontravamos a pouca distância daqui. Rocamos mais depressa e chegamos ao rancho no momento xato em que desabava tremando aguaceiro que se prolongou até o dia seguinte. Meu patrão, já muito conhecido nesta zona, foi hospedar-se com os donos da fazenda e eu e outro camarada preparamos-nos e nos deitamos em pouco couro à beira do fogo, como estávamos acostumados a fazer.

Mas, como tudo isto por aqui era diferente! Os senhores estão vendo, lá do outro lado do ribeirão, aqueles alicerces enegrecidos, meio ocultos pelo mato? São as ruinas da velha casa grande da fazenda e que, segundo ouvi contar, foi construída por um dos conjurados mineiros de 1792 e que conseguiu escapara à perseguição das autoridades portuguesas, embrenhando-se nestes sertões; mais ou menos neste mesmo lugar em que nos encontramos era o rancho de posuso dos boiadeiros e por ali, seguindo ribeirão acima, alinhavam-se as casas dos colonos italianos, que aqui viviam chegando poucos anos antes; em frente, do outro lado do rigeirão, ficavam as habitações dos trabalhadores brasileiros e onde, pelas noites de luar, se ouviam os gemidos das violas, dos cavaquinho e das sanfonas, acompanhando as toadas caipiras, tão dolentes e melancólicas, como a mesma alma dos trovadores do sertão. Vejam agora, lá mais para baixo, um esteio grosso, quase a tombar. Era lá a casa comercial do Salomão, um sírio que andava por aí a mascatear, de baú nas costas e depois estabeleceu-se nesta fazenda. Aos sábados , domingos e dias santificados, era grande o movimento na casa do Salomão, por que se ajuntavam ali não só os trabalhadores da fazena, mas ainda os da vizinhança, que vinham fazer as suas compras para a semana. Nessas ocasiões os copos de aguardente corriam de mão em mão e, como conseqüência da bebedeira, surgiam discussões, que às vezes terminavam em tapas, facadas ou bordoadas.

Como os senhores estão vendo, tudo isto está hoje acabado: os velhos fazendeiros morreram e as terras foram repartidas; os filhos casaram-se e partiram em busca de regiões melhores; por sua vez os trabalhadores foram dispersando-se e... tudo se acabou.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Gaveta Velha.

Próximo trecho: Um primeiro enconto a moda antiga.
Trecho anterior: A vida livre de um tropeiro apaixonado.

Comentários

Anônimo disse…
Esta conversa está acontecendo numa das casinhas que restaram da antiga sede do Distrito da Boa Vista, na Fazenda de JOSÉ JOAQUIM GOMES BRANQUINHO. O Pouso de Tropeiros, fica bem próximo da referida "Casa Sede". Aqui ficava a tropa, e na sede, o TROPEIRO, José Fernandes Ribeiro de Rezende, ia conversar com a família conhecida, e seus futuros sogros. Maurício José Nascimento, representou a VELHA CASA da Fazenda da Boa Vista. Manteve, em sua representação a forma de construção "PAU-A-PIQUE", o Ribeirão citado na história, e as casinhas, "lá, do outro lado dele".
Quando o Projeto Partilha esteve no local para reconhecimento e para dar fundamentação de seu trabalho, no ano de 2005, encontrou, entre muito mato e cipós, muitos escombros. Maurício foi feliz em sua representação, cuja arte registrou e irá guardar, parte de nossa história. O desenho da ANTIGA FAZENDA DA BOA VISTA, complementa a fala de Venâncio, o nosso "contador de causos", na fala do professor Wanderley Ferreira de Rezende - o professor Wandico.

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