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Martinho de Mendonça de Pina e de Proença.

Por sentir-se muito doente e temendo morrer na Colônia, Martinho de Mendonça, governador interino das Minas Gerais, fez um relatório, dando contas de suas atividades. Em especial, ele destaca as sublevações do sertão do Rio São Francisco em 1736, como o fato mais importante de seu período de governo.

"A conspiração e Levantes do sertão foi a matéria mais importante do meu Governo, pelo que a eles toca me remeto às devassas, e Contas que tenho dado; parece-me que nesta matéria não omiti, quanto podia ditar o Valor e a industria, obrando de sorte que ninguém percebeu o justo cuidado em que me achava (...)¹"

Ao dar ênfase a este levantamento dos moradores do sertão, ele queria mostrar que o evento teve em si todos os elementos para que um governante pudesse demonstrar suas habilidades e poder de comando. Nesta comunicação vamos tentar recompor o perfil do governador, conhecer os grupos dos amotinados e de seus repressores, e buscar perceber o embate de duas redes de poder.

Martinho de Mendonça de Pina e de Proença (1693-1743) foi um fidalgo da Casa Real, que esteve em Minas Gerais entre 1734 e 1737, a serviço de D. João V. Em Portugal, Proença é tido como um pioneiro nas discussões sobre educação; na historiografia mineira, ele é quase um incógnito, lembrado apenas como o funcionário que implantou o sistema de capitação, em 1735, ou como aquele que combateu os motins de 1736². Porém, vir para a Colônia foi mais um passo em sua carreira iniciada como bibliotecário da Real Biblioteca, em Lisboa.

Sua formação intelectual passa pela Escola de Artes em Coimbra, curso que não concluiu. Ainda na adolescência, engajou-se no grupo de militares portugueses que seguiam para a Hungria convocados pelo Papa, a fim de combater os turcos. Visitou Paris na companhia do Infante D. Manuel e ao voltar, incorporou-se ao movimento das Academias setecentistas, inicialmente, como membro da Academia dos Anônimos; depois na Academia Portuguesa organizada pelo 4º Conde de Ericeira; e, em seguida, na Academia Real de História Portuguesa, criada por D. João V em 08.12.1720, como um dos 50 sócios numerários³. Participou também de uma embaixada enviada a Madrid, para as negociações dos casamentos entre os príncipes dos dois reinos.

Sua vinda para as possessões luso-americanas coincide com o momento em que a Coroa decide colocar ali os seus melhores homens, principalmente nos postos chaves da Repartição Sul, que compreendia as capitanias do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, e mais as terras que se estendiam até ao atual Uruguai, no qual se situava a Colônia do Sacramento. A carreira de Martinho chama atenção porque, através dela, pode-se ver o trajeto de um homem do início do século XVIII, dividido entre as honras e as mercês obtidas na guerra e na corte, e as idéias iluministas, já bastante difundidas pelas cidades por onde andou. Em suas cartas administrativas, escritas em Minas, fica clara a defesa da ordem civilizatória4, onde o cerimonial, o respeito às hierarquias e os modos corteses têm grande valor, fazendo com que as atitudes dos habitantes coloniais pareçam-lhe selvagens e deselegantes.

O relato dos acontecimentos ligados ao motim encontra-se espalhado pelas cartas de Martinho de Mendonça e resumido no “dossiê” “Motins do sertão e outras occorrencias em Minas Geraes durante o governo interino de Martinho de Mendonça de Pina e de Proença, conforme a correspondência deste com o governo da metrópole”v. Esta comunicação tem como objetivo comentar o motim de 1736 à luz do relato de Martinho de Mendonça, mostrando a formação e o entrelaçamento das várias redes de poder presentes nas Minas setecentistas. Primeiramente, aborda o cenário e os atores dos motins; em seguida, os aspectos do drama vivido; e por último, o roteiro do episódio.

Trecho do trabalho: Uma rede de potentados: o motim de 1736 nos sertões das Minas
Profª. Irenilda Cavalcanti

Próxima matéria:

1. Carta de Martinho de Mendonça para o Secretário de Estado Antonio Guedes Pereira, de 23/12/1737, RAPM, v. 1, n. 4, p. 666, out./dez., 1896.
2. Cf. Carla M. J. ANASTASIA, Vassalos e rebeldes: violência coletiva nas Minas na primeira metade do século XVIII. Belo Horizonte : C/ Arte, 1998.; Luciano R. de A. FIGUEIREDO, Revoltas, fiscalidade e identidade colonial na América Portuguesa: Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais, 1640-1761. São Paulo: USP, 1996. (Tese de doutorado); Maria Verônica CAMPOS, Governo de mineiros: de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o caldo dourado, 1693 a 1737. São Paulo: USP/FFLCH, 2002. (Tese de Doutorado); Irenilda R. B. R. M. CAVALCANTI, Foi Vossa Majestade servido mandar: Martinho de Mendonça e o bom governo das minas, 1736-1737, Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, 2004 [dissertação de mestrado].
3. P. CALAFATE, Sob os signos das luzes: Martinho de Mendonça Pina e Proença. Filosofia Portuguesa. [on-line]; A. V. RODRIGUES, Um herói da Guarda na batalha de Belgrado. Terras da Beira, [on line]; DOIS humanistas do século das Luzes, Jornal O Interior; [on-line]; L. M. A. V. BERNARDO, Op. cit., 2002, p. 15.
4. P. Burke apud M. A. SILVEIRA, O universo do indistinto, 1997, p. 38. Também em N. ELIAS, O processo civilizador,
1994; e J. STAROBINSKI, As máscaras da civilização, 2001, p. 11-56.

Comentários

silva lemes disse…
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Abraços,

Gilberto
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Próximo Texto: O negro aquilombado e a população colonial.
Texto Anterior: Padre Vieira e a legítima sua organização dos quilombos.
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