Características dos índios na arte de Miranda.

Joaquim José de Miranda foi o autor dos desenhos aquarelados que ilustraram [o relatório da maior de todas as expedições para o reconhecimento do território, de seus recursos naturais e a conversão do gentio, que ocorreu em 1771]. Provavelmente, o autor das imagens não esteve em campo acompanhando a expedição, apenas retratou posteriormente, baseado no que estava escrito. Era, na realidade, um trabalho de ilustração do texto. Assim, teria-se uma explicação plausível para o fato de os índios aquarelados serem tão parecidos fisicamente com orientais e não com indígenas. Tratava-se da reprodução de uma imagem prévia sobre o que o aquarelista imaginava ser um índio.

As imagens propiciam um material muito interessante com relação ao aspecto físico destes índios. Alguns indivíduos foram retratados com uma cor bem mais escura que os demais. Poderiam ser negros? Sabendo-se que negros fugidos e indígenas conviviam pacificamente em muitas regiões pode-se imaginar que sim. Entretanto, os relatórios nada dizem sobre terem encontrado algum elemento negro na área. Mas como explicar a diferença de cor entre os que, teoricamente, seriam da mesma etnia? Por que a utilização de cores diferentes para registrar um mesmo grupo?

Na primeira imagem, o autor das aquarelas buscava retratar uma cena cotidiana, ou seja, o recolhimento da Pinha. Junto ao casal de índios aparecem três crianças que possuem a mesma cor de pele que os adultos. Entretanto, há também duas outras crianças mais escuras.

Nos outros três quadros há novamente a presença de elementos mais escuros que o restante da população indígena. Dos quatro índios caracterizados desta forma, pelo menos duas são mulheres.

No último quadro, ao fundo da cena, quase que escondido pela vegetação ou quem sabe, se escondendo, há um indivíduo também mais escuro.

O que a presença destas crianças, mulheres e homens mais escuros pode significar? Se o autor das aquarelas não esteve no local, porque retratou possíveis negros convivendo com indígenas? Seria um fato conhecido e aceito pelo senso comum devido à sua constância? Infelizmente não há como ter certeza das reais intenções do autor. Apenas inferências podem ser feitas.

Todas as expedições enviadas à esta região estavam inseridas no contexto criado pelo Tratado de Madri. Assim, os objetivos delas eram o reconhecimento do território e de seus recursos naturais, o favorecimento do povoamento e, conseqüentemente, a efetivação da posse da região para Portugal.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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Comentários

EAD disse…
Muito bom seu blog emuito legal o assunto tratado. A história é fascinante. tudo de bom.

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