Pular para o conteúdo principal

O negro na visão do europeu, primeiros registros.


As primeiras representações dos negros africanos eram carregadas de idéias confusas que envolviam aspectos reais e mitos, fazendo com que o imaginário sobre a África ficasse envolvido nesta atmosfera. Para estes cronistas, a África era uma região tão diferente do que eles já conheciam ou admitiam que seria mais do que plausível existirem pessoas como as que Duarte Pereira descreveu ao tratar sobre o povo de uma região identificada como a Província de Toom:
“... E os moradores desta província tem rosto e dentes como cães, e rabos como de cão, e são negros de esquiva conversação, que não querem ver outros homens...” 1
Já Alphonse de Saintonge, em 1544, após descrever os negros de Angola, passou a relatar como seriam os habitantes do interior daquela região:
“... E au dedans de la Terre, bien loing, y a gens qui n’ont point de testes et est la test dedans la poictrine, et toute la reste forme d’homme. Et plus en oriant y en a d’ autres Qui n’ont que ung ocul au front. Et au septentrion les montagnes de la Lune, y en a d’autres Qui ont les piedz comme de chièvre et aultres Qui ont visaige de chien et le reste forme d’ homme. Et de la Terre d’Angola vers le cap de Bonne Esperánce, vers ‘ austre midy, les gens para la plus grand part, ne parlent point et ne font que sibler et ont forces beufz et vaiches...” 2
Pode-se perceber que para estes autores, assim como outros de seu tempo, embora já se soubesse que os habitantes da África eram homens, a crença de que pelo menos alguns deles eram monstruosos e animalescos ainda se mantinha. Algumas destas imagens foram, evidentemente, criadas antes dos contatos. Todavia, estes não foram suficientes para acabar com as representações baseadas na crença e repletas de idealizações oriundas do mundo medieval. Por mais que os Descobrimentos tenham empurrado os europeus ao contato com outros povos e derrubado velhas crenças, as imagens arraigadas vindas do período medieval permaneceram, tornando-se necessário então, explicar as diferenças encontradas de diversas maneiras3.
Um fator que, segundo Cadamosto, contribuía para a animalidade destes povos era o calor excessivo de sua terra que impediria o desenvolvimento humano, animal, vegetal e cultural4. Era uma região difícil de ser habitada por homens.
“... E no dito país [Meli] não há animais quadrúpedes, pois todos morrem; não há animais para cavalgar nem para carga, porque não podem viver. E também muitos dos sobreditos árabes e azenegues adoecem no dito lugar, e outros morrem, e isto por causa do grande calor...e por causa desse excessivo calor, em certo tempo do ano, se lhes apodrece o sangue, de tal modo que se não fosse o remédio desse sal, morreriam...”5
Em momento algum, Cadamosto afirma que o calor poderia também prejudicar os negros habitantes da região. Somente os árabes e os azenegues, ou seja, os mouros, ambos pardos, portanto, quase brancos, sentiriam as agruras do clima. Pode-se deduzir que para Cadamosto, os negros não eram totalmente homens já que conseguiam viver sem maiores problemas na região. Eram tão primitivos que sua humanidade ainda não havia se desenvolvido completamente e caberia aos cristãos acelerar este desenvolvimento, mesmo que para isso utilizassem o cativeiro, pois, “...que pero a eles parecesse que vivendo assim viviam livres, em muito maior cativeiro jaziam seus corpos...” 6

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

Próximo Texto: A beleza dos Azenegues justifica sua liberdade.
Texto Anterior:
A bíblia como primeiro fundamento da escravidão negra.

1 PEREIRA, Pacheco Duarte. Esmeraldo de Situ Orbis. Lisboa: Academia Portuguesa de História. 1988. p. 107
2 SAINTONGE, Alphonso de. Cosmographic. Paris: Ed. De Georges Musset, 1904. P. 342. Apud. RANDLES, W.G.L. L’image du Sud-est Africain dans la literature européenne au XVI siècle. Lisboa,. Centro de Estudos históricos Ultramarinos. 1959. p. 166
3 RODRIGUES, José Honório. A imagem da África. In: Brasil e África; outro horizonte. Rio de
Janeiro: Ed. Civilização Brasileira. Vol. 1 p. 2
4 CADAMOSTO, Luis de . Viagens de Luis de Cadamosto. Lisboa: Academia Portuguesa de História. 1988. p. 108
5 Ibidem
6 ZURARA, Gomes Eanes. Crónica de Guiné. Lisboa: Livraria Civilização Brasileira, 1994.p. 283

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt

As três ilhôas de José Guimarães.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. F oi, seguido deste singelo bilhetinho que a obra " As Três Ilhoas " de José Guimarães, está em nossas mãos: Prezada Leonor Vai aqui o livro, uma Obra Póstuma, de meu marido José Guimarães. O livro vem completar a coleção da genealogia das Três Ilhoas, lançada em 1989. Agradeço a grande pesquisadora e genealogista Marta Maria Amato , pelo enriquecimento proporcionado pelas suas pesquisas. Gostei de saber que o Projeto Partilha está colaborando com o resgate da "História de Carmo da Cachoeira". Temos em nosso arquivo alguns dados das paróquias de Campanha, onde tem alguma coisa sobre sua cidade:a terra do Pe. José Bento Ferreira. Será? Atenciosamente Leyde M. Guimarães. Ouro Fino, 15-08-2006 Próxima imagem: O Capitão Diog

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

A Família Campos no Sul de Minas Gerais.

P edro Romeiro de Campos é o ancestral da família Campos do Sul de Minas , especialmente de Três Pontas . Não consegui estabelecer ligação com os Campos de Pitangui , descendentes de Joaquina do Pompéu . P edro Romeiro de Campos foi Sesmeiro nas Cabeceiras do Córrego Quebra - Canoas ¹ . Residia em Barra Longa e casou-se com Luiza de Souza Castro ² que era bisneta de Salvador Fernandes Furtado de Mendonça . Filhos do casal: - Ana Pulqueria da Siqueira casado com José Dias de Souza; - Cônego Francisco da Silva Campos , ordenado em São Paulo , a 18.12. 1778 , foi um catequizador dos índios da Zona da Mata ; - Pe. José da Silva Campos, batatizado em Barra Longa a 04.09. 1759 ; - João Romeiro Furtado de Mendonça; - Joaquim da Silva Campos , Cirurgião-Mor casado com Rosa Maria de Jesus, filha de Francisco Gonçalves Landim e Paula dos Anjos Filhos, segundo informações de familiares: - Ana Rosa Silveria de Jesus e Campos , primeira esposa de Antônio José Rabelo Silva Pereira , este nascido

Antiga foto da cidade de Carmo da Cachoeira.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Foto: Paulo Naves dos Reis Próxima imagem: Imagem da mata da fazenda Caxambu em Minas. Imagem anterior: Um pouco sobre a região do distrito de Palmital.

Eis o amor caridade, eis a Irmã Míriam Kolling.

À Irmã Míria T. Kolling: Não esqueçam o amor Eis o amor caridade , dom da eternidade Que na entrega da vida, na paz repartida se faz comunhão ! Deus é tudo em meu nada: sede e fome de amar! Por Jesus e Maria, Mãe Imaculada todo mundo a salvar! " Não esqueçam o amor ", Dom maior, muito além dos limites humanos do ser, Deus em nós, entrega total! Não se nasce sem dor, por amor assumida: Nada resta ao final do caminho da vida a não ser o amor . Próximo artigo: Até breve, Maria Leopoldina Fiorentini. Artigo anterior: Os Juqueiras, Evando Pazini e a fazenda da Lage

Um poema à Imaculada Conceição Aparecida.

Por esse dogma que tanto te enaltece, Por tua Santa e Imaculada Conceição, Nós te louvamos, ó Maria, nesta prece, Mulher bendita, as nações te chamarão! Salve, Rainha, ó Mãe da Misericórdia! Nossa esperança, nosso alento e vigor, A nossa Pátria, vem, liberta da discórdia, Da ignomínia, da injustiça e desamor! Tu família, aqui, hoje reunida, Encontra forças no seu lento caminhar. A ti recorre, Virgem Santa Aparecida, Nosso caminho vem, ó Mãe, iluminar! Somente tu foste escolhida e preparada Por Deus, o Pai, que com carinho te ornou, Para fazer do Filho Seu, digna morada! Pelo teu sim, a humanidade se salvou. Novo Milênio, com Maria festejamos, Agradecendo tantas graças ao Senhor. Com passos firmes, nova etapa iniciamos, Com muita fé, muita esperança e muito amor. Trecho da obra: Encontros e desencontros de Maria Antonietta de Rezende Projeto Partilha - Leonor Rizzi Próximo Texto: A túnica Inconsútil, um poema de fé. Texto Anterior: A prece da poeta e professora Maria Antonie

Foto de família: os Vilela de Carmo da Cachoeira-MG.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. E sta foto foi nos enviada p or Rogério Vilela. Da esquerda para a direita: Custódio Vilela Palmeira, Ercília Dias de Oliveira, Fernando de Oliviera Vilela, Adozina Costa (Dozica), Jafoino de Azevedo e José de Oliveira Vilela (Zé Custódio). Imagem anterior: Sinopse Estatística de Carmo da Cachoeira - 1948

Padre José Procópio Júnior em Carmo da Cachoeira

Paróquia Nossa Senhora do Carmo sob nova guiança Editorial Sai Pe. Daniel Menezes, e assume como administrador paroquial da acolhedora cidade de Carmo da Cachoeira, em fevereiro de 2019, o Pe. José  Procópio Júnior. "Não cabe à pedra escolher o lugar que deve ocupar no edifício. Assim também não cabe à nós criaturas ditar ao Criador o que deve acontecer em nossa vida, pois Deus é quem sabe e dispõe com sabedoria própria." − Dom Servílio Conti, IMC Como página que observa os acontecimentos neste pedaço de chão mineiro, limitado por montanhas e que, segundo o cachoeirense Padre Godinho, “todas são azuis”, registramos o remanejamento ocorrido entre padres ligados a Diocese da Campanha no ano de 2019. Entre as mudanças encontra-se a Paróquia Nossa Senhora do Carmo/Carmo da Cachoeira – MG. Sai nosso querido Padre Daniel Menezes. Por ele continuamos a rezar e o devolvemos, entre lágrimas e a esperança de um dia tê-lo entre nós. Somos eternamente gratos e devedores. Entr

Antiga foto da fazenda da Serra de Carmo da Cachoeira.

F Luiz José Álvares Rubião, em publicação da obra, Álbum da Varginha pela Casa Maltese, às fls. (a publicação não contempla, nem ano, nem nº de páginas), descreve a Fazenda da Serra da seguinte forma: “A uma légua da freguesia do Carmo da Cachoeira, está situada a Fazenda da Serra, propriedade do Cel. Antônio Justiniano dos Reis”. Se diz: Freguesia, leia-se, após, 1857. Em publicação, no ano de 1918, Sylvestre Fonseca e João Liberal, às fls. 149, dizem: “O Cel. Antônio Justiniano dos Reis falecido o anno passado, foi um dos mais importantes fazendeiros do Distrido do Carmo da Cachoeira”. Ary Florenzano, genealogista, cita a Fazenda da Serra, apresentando-a como sendo o lugar onde pela primeira vez, aparece o nome Carmo da Cachoeira, em documento. O 21º Anuário Eclesiástico da Diocese da Campanha, 1959, fls. 28: “Aos onze dias do mês de novembro do ano de mil oitocentos e dezenove, na Ermida de Nossa Senhora do Carmo da Cachoeira, desta freguesia de São João Del Rei, receberam