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Os iluministas e a submissão das Américas.

Para De Pauw, um outro pensador do século XVIII, a natureza americana seria decaída e decadente em função de ser pantanosa. Após o dilúvio que havia acometido toda a Terra, esta região teria sofrido um outro, de caráter particular. O Velho Mundo já havia secado, enquanto que o Novo Mundo ainda estaria sofrendo as consequências deste último dilúvio. Homens e animais teriam perecido e somente alguns poucos haviam conseguido escapar para partes mais altas da região. Segundo este autor, isto explicaria o fato de haver poucas pessoas na América e também justificava todas serem bárbaras e incultas segundo o ponto de vista da época. Esta população não teria tido tempo de se desenvolver e atingir o grau de civilização que a Europa já havia conseguido. (Poliakov)

Quanto aos índios, estes seriam para De Pauw, animais não políticos e incapazes de progredir porque não viviam em sociedade. Eram associados aos animais selvagens, às feras e às bestas. Por tudo isso, eram passíveis de serem capturados pelos mais fortes e civilizados.

Percebe-se que para alguns filósofos iluministas, a humanidade na América estaria pautada pela incivilidade. E, ao contrário dos pensadores dos séculos XVI e XVII que viam no Cristianismo a salvação para este povo atormentado pelas bruxarias e pelas artimanhas do Diabo (que controlava a região) e fazia com que os índios praticassem atos nefandos, como a antropofagia, os filósofos Iluministas já não acreditavam em uma possível salvação para a população americana. Os problemas de incivilidade eram causados por catástrofes e condições naturais, portanto, irreversíveis.

Para uma elite colonial que de uma forma ou de outra tinha contatos com os pensamentos europeus, haveria dois tipos de regiões: uma já civilizada, ocupada e controlada pela sociedade, e outra ainda em estado de barbárie. A civilizada seria aquela que possuía população branca habitando e desenvolvendo-a economicamente. A segunda seriam os Sertões, áreas de moradia dos selvagens e vazias de populações brancas e, portanto, incivilizadas para os valores da época. Era também uma região desconhecida da ciência do século XVIII, tão ávida por contatos com “outros mundos”. Suas plantas e animais não eram ainda, em sua maioria, conhecidos e apenas os que eles consideravam bárbaros tinham acesso a este conhecimento e sua utilidade. Conquistar esta área significava também conquistar sua natureza, domá-la e assim civilizá-la.

Mas para isso, era necessário conhecê-la, classificá-la e ordená-la.

Pombal, durante o período de seu governo apoiou a criação de inúmeras academias literárias ou científicas não só em Portugal, mas também no Oriente e no Brasil, com estes objetivos em mente.

Em Minas Gerais, o Conde de Valadares, Governador da Capitania no período de 1768 a 1773, era um homem de seu tempo e estava afinado com o que se pensava e se discutia na Europa. Em um documento de sua autoria, enviado ao líder de uma expedição ao Sertão, ele pedia que lhe fossem enviadas algumas amostras de:

“...alguns bichos mais caros e borboletas e outros insetos; como também sementes de todas as qualidades, resinas, raízes com alguns pequenos troncos com a sua folha, fruto e flor. É certo que não poderão vir verdes e bastará que venham secas com a folha estendida, e flor há preciso que em cada uma destas... ponha V.Me. o seu nome e sítio onde foi achada e em uma relação a qualidade em verde e em seco, a figura, a grandeza, as cores, as utilidades, o modo da manipulação, as dores e as enfermidades a que são aplicáveis e ainda aquelas que não tem ou não se lhes conhecem do préstimo...”.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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