Os artistas da Missão Francesa e as diferenças.

Rocha Pita, escrevendo em 1730, ainda que não diferencie os Tupi dos Tapuia, também percebia variações entre os diversos grupos de índios, divididos em “...inumeráveis nações, algumas enos feras, mas todas bárbaras...”.

Todos os grupos viviam sem religião, nus, e alguns, eram antropófagos. Esta mesma idéia a respeito das diferenças entre os índios permanece até o século XIX, e pode ser identificada em Varnhargen: “ ... Além das alcunhas, um nome geral havia, com que cada grêmio designava todos os outros que lhe eram absolutamente estranhos – nome que se pode comparar ao de que na antigüidade usaram os Gregos e depois os Romanos... para designar todas as nações estrangeiras, o de Bárbaro, ou na língua geral Tapuia...”

Um outro grupo de imagens sobre estes indígenas também reflete representações estereotipadas, ainda que seus autores afirmem nos textos explicativos, como fez Rugendas, que existiam muitas tribos no Brasil “mas é difícil dizer quais delas são Tupi e quais Tapuia. Em geral este último vocábulo compreende todos os índios selvagens independentes, por oposição aos que estão domesticados e civilizados...”. Essas idéias de que existiam índios dóceis e índios bravios e que estas características poderiam ser associadas aos Tupi ou aos Tapuia podem ser percebidas através de uma série de imagens feitas por Rugendas, Spix e Martius, Wied-Neuwied e Debret. Nelas, percebe-se claramente identificadas estas concepções maniqueístas e dicotômicas.

Aldeia de Coroados - Johann Baptiste von Spix e Carl F. Philip von Martius.
Botocudos, Puris, Patachos e Machacalis - Jean Baptiste Debret. In: Voyage pittoresque et historique au Brésil.

Através destes dois exemplos pode-se identificar que em ambos os índios estão nus e em contato com a natureza. Entretanto, há enormes diferenças entre os dois grupos. Os Coroados, índios litorâneos e que tiveram contatos com os portugueses, foram retratados em uma área clara e são mostrados com indícios culturais, como o abrigo de palha, a domesticação de animais, a preparação de algum alimento ou bebida, e a caça. O quadro que representa os índios tido como bravos, ou seja, aqueles que se recusavam a ter qualquer contato com os colonos, mostra uma cena completamente diferente.

O cenário procura passar uma idéia de lugar inóspito, perigoso e escuro. Os índios pintados demonstram toda a sua fereza e não há qualquer indício que se refira a algum aspecto cultural, pelo menos aos que os olhos civilizados reputavam como tal. A própria maneira deles se alimentarem foi representada de modo a dar uma sensação de que se trata, na realidade, de índios bárbaros. Assim, a aproximação destes com as feras é inevitável.

Estas diferenças entre os Tupi e os Tapuia foram fortes e duradouras, podendo ser observadas nas pinturas que foram feitas sobre ambos em vários momentos. Via de regra, nelas o Tupi é sempre associado à civilização e ao projeto de colonização. Já o Tapuia, é sempre identificado em um habitat natural, selvagem e sem elementos civilizadores.

Pode-se afirmar que em seus primeiros contatos com a terra Brasílica, os europeus identificaram dois grandes grupos indígenas, os Tupi e os Tapuia e duas grandes áreas.

Estas idéias permaneceram no tempo e chegaram aos séculos seguintes com bastante força explicativa. A primeira área seria o litoral, rapidamente conhecido e controlado. Seus habitantes foram vistos quase sempre como pacíficos e aliados e os que assim não agiam, rapidamente foram expulsos ou aniquilados. Desta maneira, a verdadeira palavra de Deus pôde ser levada a estes homens. A segunda área seria o seu oposto: o Sertão, local onde primava a barbárie, a selvageria e era para lá que os índios que não aceitavam a religião cristã fugiam. Assim, o Sertão passou a ser também refúgio para os incivilizáveis.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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