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O índio e o demônio.

Para os europeus (primeiros séculos do segundo milênio), a suposta dualidade identificada entre Costa e Sertão na área colonial podia ser vista também entre os que habitavam estes dois mundos: havia os índios que viviam no litoral e os que habitavam o interior, os Tupi e os Tapuia, respectivamente.

Mas, acima de tudo, o índio, quer fosse do litoral ou do Sertão, era identificado como um ser exótico que alguns associavam à pureza dos costumes, à falta de pecados e à possibilidade de catequização; e outros, à absoluta degenerescência, ao pecado e aos pactos com o demônio. Na realidade era apenas mais uma forma dual para se entender o que era o índio.

Sobre o primeiro grupo de idéias acerca destes habitantes, esta imagem é sintomática:

No quadro Adoração dos magos de 1505, há uma cena corriqueira na construção deste tipo de tema: os Reis Magos são substituídos por representantes de diferentes povos que, juntos, formariam a Cristandade. Todos estariam assim, rendendo homenagens a Cristo. O índio, neste caso, estaria representando o processo de catequização realizado por religiosos, demonstrando a viabilidade do projeto cristão nas Américas.

Entretanto, representações do indígena de maneira positiva são raras; na maior parte das vezes é associada a visões negativas.

Estas cenas de conflito, exacerbadas também nas pinturas que os europeus faziam destes índios, podem ser claramente percebidas nos quadros feitos por aqueles que por aqui estiveram, ou mesmo pelos que ouviram falar sobre o Brasil. Nelas, percebe-se quase sempre, visões estereotipadas e, em alguns casos, fantásticas. Há, via de regra, um predomínio da natureza sobre os homens e associações destes com o mundo animal. Ocorrem também idéias que apresentam a população americana como que vivendo sob o domínio de forças demoníacas:

Esta iconografia é muito rica em termos de concepções acerca deste Novo Mundo e de seus habitantes. O que primeiro se percebe é a visão de que os índios são seres à mercê dos demônios e que mesmo os religiosos podem ser abarcados pelos representantes do mal. O principal objetivo é demonstrar o papel da Igreja e da evangelização sobre as almas perdidas dos índios.

Há também presente nesta obra, uma mistura de elementos reais e maravilhosos de maneira a construir uma idéia de caos. Se as ocas indígenas são reais, o mesmo não se pode dizer com relação às suas posições tão próximas da praia e o restante do quadro que apresenta seres voadores, corpos humanos com cabeças de animais; enfim, uma cena que só seria possível na imaginação de um artista europeu impregnado de valores ainda medievais.

Trecho de um trabalho sobre Minas Gerais colonial de Marcia Amantino.

Comentários

Artmann disse…
é um ótimo texto da marcia amantino, muito bem colocado; importante, aliás, quando tratamos da história de qualquer cidade ou região no período colonial. muita gente não gosta da expressão "dívida histórica", mas é o termo q define o legado histórico-cultural q herdamos em relação aos povos nativos. uma dívida humana, cultural, q atravessa séculos.
devagarzinho vamos aprendendo a valorizar a cultura indígena, resgatar um pouquinho do q é possível, conviver com ela e com os descendentes dos antigos habitantes do continente, de preferencia sem q eles deixem de ser índios, mesmo integrados em nosssa sociedade/nação. e o tupinanquim, embora personagem de ficção, participa desse processo.
parabéns e boa sorte com o blog e com a divulgaão desse patrimônio q é a história regional de Carmo da Cachoeira!

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Texto Anterior: Padre Vieira e a legítima sua organização dos quilombos.
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1 Barleus, Gaspar. História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.
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