Pular para o conteúdo principal

Semana Santa, folguedos e fé em Minas Gerais.


Vinha depois a Semana Santa. Eram solenidades que nós, crianças então, adorávamos, porque tornavam-se para nós dias de satisfação, visto que não faltavam motivos para nossas traquinadas.

Metidos nas calcinhas novas, sapatos apertando os dedos acostumados à liberdade do ar livre, não tinhamos parada, na procura de novidades. Aqui, era um botequim que se abria pra vender doces, pastéis, broas, etc.; ali, uma banca de jogos com seus dados, roletas, tiro ao alvo em maços de cigarro; mais adiante, uma outra coisa qualquer inventada por algum espertalhão, com a finalidade de apanhar dinheiro aos trouxas das roças ou do arraial. Como não havia policiamento que proibisse Às crianças a permanência junto a tais arapucas, percorríamos todas elas e não raro arriscávamos também o nosso tostãozinho numa roda qualquer.

As solenidades da Semana Santa sempre atraíam a Carmo da Cachoeira um grande número de pessoas das cidades vizinhas porque, desde tempos anteriores, eram famosas pela ordem, pelos pregadores e pela perfeita organização de seus programas. Principalmente na Sexta-Feira da Paixão, a praça e as ruas enchiam-se uma multidão de pessoas de todas as idades e de todas as classes, que se movimentavam para cá e para lá, aguardando a hora dos ofícios religiosos.

Ao redor da igreja, desde o meio dia de Quinta-Feira realizava-se a cena do descimento da cruz, com o costumeiro sermão: terminando este, lá no alto do Calvário, a Verônica entoava o seu cântico, secundada pelas Be-us (sic) e a seguir iniciava-se a procissão do enterro, ponto máximo e a seguir iniciava-se a procisão do enterro, ponto máximo da Semana Santa. Atrás do esquife, seguia o centurião, com o seu uniforme vistoso de soldado romano, lança a ferir cadenciadamente o solo; na frente, o grande estandarte rubro, tombado em sinal de luto e no qual se destacavam, em negro, as letras S.P.Q.R. E as duas filas imensas, contritas, silenciosas estendiam-se pelas ruas antes tão escuras e agora iluminadas pela luz vacilante de muitas centenas de velas. Breve, a banda de música lançava ao ar os primeiros sons da marcha fúnebre, que, com as batidas da matraca de Balbino, ecoavam pelas quebradas dos morros adjacentes.

Toda vez que o esquife passava frente a um dos paços, intrerrompia-se a procissão e a Verônica, subindo a um tamborete, entoava o seu cântico lamentoso que entrava pelos ouvidos a dentro e ia ferir os corações sentimentais. Aquele "O vos omnes qui transitis per viam", como que se plantava em nossas almas, onde ficava ecoando durante muito tempo depois de terminado.

Tudo era tristeza e recolhimento durante a procissão que terminava quase lá pela meia noite.

De volta à igreja, o esquife em que jazia a imagem do Senhor Morto era colocado frente ao altar-mor e, enquanto o centurião ficava a fazer guarda, andando para lá e para cá, desfilavam os fiéis para a clássica cerimônia do beijo, quando lá fora os responsáveis pelo "judas" já começavam a correria pelas ruas e quintais, roubando plantas e conduzindo animais, carros de bois e outros objetos que encontrassem, para formar a chácara e outros haveres do Iscariotes.

Às doze badaladas do meio dia de Sábado de Aleluia, o arraial tomava outro aspecto. A igreja antes coberta de luto, engalanava-se com sua ornamentação branca; os altares eram enfeitados com flores alegres e cá fora a multidão se movimentava para as proximidades da chácara do judas, onde a banda de música já se fazia ouvir e foguetes estouravam no ar, formando nuvens de fumaça que vagueavam no espaço, ao sabor do vento.

Era chegada a hora da queima do tradicional boneco de pano e estopa, que representava o maior traidor da história.

Antes de se atear fogo ao judas, era lido o seu testamento, redigido em versos. Quase sempre os bens do traidor eram distribuídos a pessoas importantes do lugar e constituída uma cena humorística que arrancava gargalhadas a todos os presentes. Acabada a leitura do testamento, punha-se fogo no boneco, que lá estava amarrado ao poste, indiferente à algazarra que se fazia em redor. Neste momento, redobrava a alegria geral: a criançada dançava e pulava ao som da música, os foguetes subiam ao ar uns após outros e como que uma febre de entusiasmo tomava conta do povo.

Quando o Judas se despencava do poste, era arrastado e espatifado, enquanto alguns moleques, e mesmo rapazes da classe humilde tentavam apoderar-se das botinas, das calça, ou do chapéu, que ainda eram aproveitáveis.

Domingo, pela madrugada, a procissão da Ressurreição e com ela estava terminadas as solenidades da Semana Santa em Carmo da Cachoeira.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

Próxima matéria: As visitas pastorais, a banda, o menino e o médico.
Matéria Anterior: A festa de São Sebastião em Carmo da Cachoeira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Tabela Cronológica 10 - Carmo da Cachoeira

Tabela 10 - de 1800 até o Reino Unido - 1815 - Elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves - 1815 ü 30/Jan – capitão Manuel de Jesus Pereira foi nomeado comandante da Cia. de Ordenanças da ermida de Campo Lindo; e ü instalada a vila de Jacuí . 1816 1816-1826 – Reinado de Dom João VI – após a Independência em 1822, D. João VI assumiu a qualidade e dignidade de imperador titular do Brasil de jure , abdicando simultaneamente dessa coroa para seu filho Dom Pedro I . ü Miguel Antônio Rates disse que pretendia se mudar para a paragem do Mandu . 1817 17/Dez – Antônio Dias de Gouveia deixou viúva Ana Teresa de Jesus . A família foi convocada por peritos para a divisão dos bens, feita e assinada na paragem da Ponte Falsa . 1818 ü Fazendeiros sul-mineiros requereram a licença para implementação da “ Estrada do Picu ”, atravessando a serra da Mantiqueira e encontrando-se com a que vinha da Província de São Paulo pelo vale do Paraíba em direção ao Rio de Janeiro, na alt

As três ilhoas de José Guimarães

Fazenda do Paraíso de Francisco Garcia de Figueiredo Francisco Garcia de Figueiredo é citado como um dos condôminos / herdeiros da tradicional família formada por Manuel Gonçalves Corrêa (o Burgão) e Maria Nunes. Linhagistas conspícuos, como Ary Florenzano, Mons. José Patrocínio Lefort, José Guimarães, Amélio Garcia de Miranda afirmam que as Famílias Figueiredo, Vilela, Andrade Reis, Junqueira existentes nesta região tem a sua ascendência mais remota neste casal, naturais da Freguesia de Nossa Senhora das Angústias, Vila de Horta, Ilha do Fayal, Arquipélago dos Açores, Bispado de Angra. Deixaram três filhos que, para o Brasil, por volta de 1723, imigraram. Eram as três célebres ILHOAS. Júlia Maria da Caridade era uma delas, nascida em 8.2.1707 e que foi casada com Diogo Garcia. Diogo Garcia deixou solene testamento assinado em 23.3.1762. Diz ele, entre tantas outras ordenações: E para darem empreendimento a tudo aqui declarado, torno a pedir a minha mulher Julia Maria da Caridade e mai

A Família Campos no Sul de Minas Gerais.

P edro Romeiro de Campos é o ancestral da família Campos do Sul de Minas , especialmente de Três Pontas . Não consegui estabelecer ligação com os Campos de Pitangui , descendentes de Joaquina do Pompéu . P edro Romeiro de Campos foi Sesmeiro nas Cabeceiras do Córrego Quebra - Canoas ¹ . Residia em Barra Longa e casou-se com Luiza de Souza Castro ² que era bisneta de Salvador Fernandes Furtado de Mendonça . Filhos do casal: - Ana Pulqueria da Siqueira casado com José Dias de Souza; - Cônego Francisco da Silva Campos , ordenado em São Paulo , a 18.12. 1778 , foi um catequizador dos índios da Zona da Mata ; - Pe. José da Silva Campos, batatizado em Barra Longa a 04.09. 1759 ; - João Romeiro Furtado de Mendonça; - Joaquim da Silva Campos , Cirurgião-Mor casado com Rosa Maria de Jesus, filha de Francisco Gonçalves Landim e Paula dos Anjos Filhos, segundo informações de familiares: - Ana Rosa Silveria de Jesus e Campos , primeira esposa de Antônio José Rabelo Silva Pereira , este nascido

A família do Pe. Manoel Francisco Maciel em Minas.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Próxima imagem: Sete de Setembro em Carmo da Cachoeira em 1977. Imagem anterior: Uma antiga família de Carmo da Cachoeira.

Um poema à Imaculada Conceição Aparecida.

Por esse dogma que tanto te enaltece, Por tua Santa e Imaculada Conceição, Nós te louvamos, ó Maria, nesta prece, Mulher bendita, as nações te chamarão! Salve, Rainha, ó Mãe da Misericórdia! Nossa esperança, nosso alento e vigor, A nossa Pátria, vem, liberta da discórdia, Da ignomínia, da injustiça e desamor! Tu família, aqui, hoje reunida, Encontra forças no seu lento caminhar. A ti recorre, Virgem Santa Aparecida, Nosso caminho vem, ó Mãe, iluminar! Somente tu foste escolhida e preparada Por Deus, o Pai, que com carinho te ornou, Para fazer do Filho Seu, digna morada! Pelo teu sim, a humanidade se salvou. Novo Milênio, com Maria festejamos, Agradecendo tantas graças ao Senhor. Com passos firmes, nova etapa iniciamos, Com muita fé, muita esperança e muito amor. Trecho da obra: Encontros e desencontros de Maria Antonietta de Rezende Projeto Partilha - Leonor Rizzi Próximo Texto: A túnica Inconsútil, um poema de fé. Texto Anterior: A prece da poeta e professora Maria Antonie

A família Faria no Sul de Minas Gerais.

Trecho da obra de Otávio J. Alvarenga : - TERRA DOS COQUEIROS (Reminiscências) - A família Faria tem aqui raiz mais afastada na pessoa do capitão Bento de Faria Neves , o velho. Era natural da Freguesia de São Miguel, termo de Bastos, do Arcebispado de Braga (Portugal). Filho de Antônio de Faria e de Maria da Mota. Casou-se com Ana Maria de Oliveira que era natural de São João del-Rei, e filha de Antônio Rodrigues do Prado e de Francisca Cordeiro de Lima. Levou esse casal à pia batismal, em Lavras , os seguintes filhos: - Maria Theresa de Faria, casada com José Ferreira de Brito; - Francisco José de Faria, a 21-9-1765; - Ana Jacinta de Faria, casada com Francisco Afonso da Rosa; - João de Faria, a 24-8-1767; - Amaro de Faria, a 24-6-1771; - Bento de Faria de Neves Júnior, a 27-3-1769; - Thereza Maria, casada com Francisco Pereira da Silva; e - Brígida, a 8-4-1776 (ou Brizida de Faria) (ou Brizida Angélica) , casada com Simão Martins Ferreira. B ento de Faria Neves Júnior , casou-se

Foto de família: os Vilela de Carmo da Cachoeira-MG.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. E sta foto foi nos enviada p or Rogério Vilela. Da esquerda para a direita: Custódio Vilela Palmeira, Ercília Dias de Oliveira, Fernando de Oliviera Vilela, Adozina Costa (Dozica), Jafoino de Azevedo e José de Oliveira Vilela (Zé Custódio). Imagem anterior: Sinopse Estatística de Carmo da Cachoeira - 1948

Antiga foto da cidade de Carmo da Cachoeira.

A jude-nos a contar a história de Carmo da Cachoeira. Aproveite o espaço " comentários " para relatar algo sobre esta foto, histórias, fatos e curiosidades. Assim como casos, fatos e dados históricos referentes a nossa cidade e região. Foto: Paulo Naves dos Reis Próxima imagem: Imagem da mata da fazenda Caxambu em Minas. Imagem anterior: Um pouco sobre a região do distrito de Palmital.

Biografia de Maria Antonietta de Rezende.

O prefeito municipal e a secretária de Educação, Cultura e Lazer, ao assinarem a apresentação da obra: “Atlas Escolar. Histórico e Geográfico do Município de Carmo da Cachoeira – MG. Edição 2007” declararam: “ Este Atlas permite às crianças descobrirem protagonistas de sua história. Conhecendo, passam contribuir para potencializar o que ela tem de bom, preservar seu patrimônio e símbolos do passado .” D entre os símbolos , o Hino da cidade. Escrito pela Professora Maria Antonietta , encontra-se em fase de oficialização. A tradição garante a manutenção desta criação. O povo canta , reconhece o hino de sua cidade, e atento acompanha o processo de sua oficialização. A administração pública e Câmara municipal apoiam a manutenção daquilo que foi consagrado pela tradição. Dois pontos fortes na letra do hino bastam para garantir sua oficialização. O primeiro é o que diz da religiosidade presente na população e que a cada dia se torna mais revelador da identidade e vocação de Carmo da