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Amor e sabotagem em um circo no Sul de Minas.


Circos de cavalinhos são coisas comuns e só mesmo no passado, quando o povo não tinha outras diversões, constituíam novidades que davam motivo a comentários até muito tempo depois que se iam embora. Se aqui vamos falar sobre circos é tão somente para dizer o que significavam eles na vida cachoeirense do passado.

Os circos, em Carmo da Cachoeira, eram armados na praça, atrás da igreja e, tanto como me lembro, de cavalinhos só tinha o nome, talvez por tradição, porque não me recordo de ter visto nenhum cavalo nos circos que aqui vieram.

O circo "Aliados", cujo proprietários era um Samuel Levi, foi o primeiro de que guardei recordação e aqui esteve ali pelos fins de 1917 ou princípios de 1918. Plantou-se no arraial por vários meses, creio que em consequência das chuvas que impediam sua transferências para outra localidade e, assim, por muito tempo o povo cachoeirense teve distração para as noites de sábado e domingo. Seus artistas integraram-se na vida do arraial e tornaram-se amigos dos cachoeirenses.

Não guardei o nome de todos os artistas do circo, porém lembro-me muito bem dos três palhaços: o Getúlio, que se pintava de preto e se dizia "dotô sujão", o Pipoca e o próprio dono do circo, o Samuel Levi. O mais destacado elemento feminino era aquela bonita Julieta, filha do Samuel e que fez andar à roda a cabeça dos rapazes daquele tempo: o Zequinha Ximenes, o Tonico Marciano, Zé Chagas, e outros. Faziam um verdadeiro assédio em torno de Julieta mas, e apesar ainda das serenatas que lhe dedicavam e nas quais o Zequinha Ximenes; bom músico mas desafinado como quê, berrava naquela sua voz de falsete as velhas canções muito em voga entre os seresteiros do passado, a moça era educada e séria e seus admiradores eram mantidos à distância, embora tratados com delicadeza.

Como logo se vê, Julieta era a personagem central do elenco e para ela se voltavam todas as atenções. Cantora e trapezista, quando cantava acompanhada ao violão pelo Getúlio, ou trabalhava no trapézio com seu irmão, o Pipoca, o circo quase vinha abaixo com os aplausos, principalmente da rapaziada, presa dos encantos da jovem artista.

Certa noite de espetáculo, e eu nunca me esquecerei do susto que levamos, estavam os dois irmãos a fazer as suas acrobacias no trapézio, Julieta no mais alto e Pipoca no inferior. Os trapézios pendiam de um suporte de madeira roliça, preso ao mastro por um gancho de ferro e amarrado por uma corda resistente que se enrolava ao mastro até quase junto ao solo. Em dado momento a corda partiu-se e o suporte veio abaixo, com Julieta e Pipoca despencando-se de grande altura. A felicidade dos dois artistas foi que o suporte, na queda desviou-se para um lado, não tocando nem de leve os trapezistas. Pipoca, chegando primeiro ao chão, pois se achava no trapézio mais baixo, como já ficou dito, ainda teve o sangue frio de amparar a irmã com os braços, evitando assim, que ela sofresse ferimentos graves.

Grande foi o nervosismo da assistência e o circo suspendeu seus trabalhos naquela noite. No dias seguinte, examinando as causas do desastre, verificou-se que a corda havia sido cortada criminosamente e a culpa foi atirada a um artista que havia abandonado o circo, por desavença com o Pipoca.

Pouco tempo depois deste acontecimento o circo "Aliados" despedia-se do arraial, deixando saudades e também muita tristeza pela ausência da simpática, bonita e alegre Julieta, que pertencia ao elenco do circo, mas "não era de circo".

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

Próxima matéria: A professora, a rígida moral mineira e o palhaço.
Matéria Anterior:
As duas fazes do antigo Colégio Cachoeirense.

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