Marx e Warner e as hordas de quilombolas.

Ainda que estas estruturas fossem bastante complexas, a maior parte dos quilombos mineiros pode ser classificada no segundo tipo, ou seja, são Quilombos Dependentes ou ainda, Hordas Quilombolas.

As Hordas teriam uma relação completamente diferente com a terra, vista apenas como um objeto de trabalho. Segundo Marx, suas principais características:

a) a exploração sobre a terra seria direta, ou seja, não haveria investimento de energia humana;
b) os que nela viviam, obtinham o sustento por meio de caça, pesca, coleta e razias;
c) eram grupos pequenos e nômades, com uma grande mobilidade entre os diferentes bandos;
d) a existência do grupo se fazia basicamente por adesão e possuíam uma organização social precária, isto é, seus elementos só se mantinham unidos por necessidades momentâneas, como auxílio, busca de alimentos, fuga etc...
e) estes grupos não necessitavam de um líder para dirigi-los.

Uma outra visão sobre as hordas foi fornecida por Warner. Segundo ele, “...a horda é um grupo econômico instável, cujos membros e cuja dimensão são regulados pelo ciclo das estações...”1

Os Quilombos Dependentes, com pequenas populações, sem lideranças ou com lideranças temporárias, não fixados em um único local e sem grandes ligações com as práticas agrícolas, podem ser associados a este tipo descrito como hordas, uma vez que compartilham das mesmas características e todas apontam para a relação que tinham com a terra: para eles a terra era um objeto de trabalho e não um meio.

A maior parte dos quilombos brasileiros se enquadra neste tipo, ou seja, foram quilombos que sobreviveram graças aos ataques à população e não à agricultura. Eram estruturas menores, porém constantes. Os quilombos que se mantiveram através destes mecanismos foram os mais comuns entre outros motivos porque eram menores, portanto, com maiores facilidades para dispersar seus membros quando atacados e também escondê-los no mato.

Entretanto, ainda que fossem estruturas menores, a quantidade de quilombos deste tipo dispersos por praticamente todo o território era muito elevada, fazendo com que esta estrutura fosse o grande pavor da população branca. Minas Gerais não fugiu à regra.

“...Por me constar com certeza que a fazenda chamada dos Azevedos no caminho do Rio de Janeiro da qual é possuidor Francisco Coelho se acham seis negros fugidos e alguns que aparecem... e haver notícia de grande número deles, em todas as vizinhanças, andam fugidos aquilombados e dispersos causando grandes danos e prejuízo ao bem comum, moradores e viajantes daquele continente, e estradas...”2

Não se pode descartar a possibilidade destes tipos de quilombos serem uma espécie de primeira fase do estágio para atingir uma etapa posterior onde se transformariam em estruturas mais complexas. Desta maneira, pode-se imaginar que a maioria dos quilombos brasileiros conhecidos não teve tempo hábil para aprimorar suas estruturas.

Em muitos casos, estas estruturas eram confundidas e associadas aos grupos de garimpeiros clandestinos, aos homens livres pobres ou mesmo aos bandidos. Assim, seus limites ficam muito tênues e às vezes, de difícil percepção.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. WARNER, W. L. A black civilization. New York. Harper, 1937. P. 138. Apud. Dicionário de Ciências Sociais. Op. Cit. P. 56
2. APM SC 170 P. Cod. 96

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