Marx e os quilombos como comunidades agrícolas.


A diferença de comportamentos entre os quilombolas do Rio de Janeiro e os de Minas Gerais não invalida a utilização da tipologia, porque o que define um quilombo como Auto Sustentável é a existência de uma prática interna de produção de alimentos para manter uma população estável e de porte elevado, e isto alguns quilombos mineiros possuíam. Da mesma forma, o que caracteriza os Quilombos Dependentes é a existência de uma população pequena, sua não fixação em um único local e a ausência de práticas sistemáticas de produção de alimentos no interior do quilombo. Até porque a própria noção espacial de quilombo nestes casos é temporária.

A grande diferença encontrada entre a realidade do Rio de Janeiro e a mineira foi no tocante ao que a tipologia classifica como Quilombos Mistos. Como os quilombolas de Minas Gerais praticavam roubos à população, quer tivessem ou não uma agricultura capaz de alimentar a sua população, este item da tipologia diluiu-se nos dois anteriores.

Além desta tipologia, o conceito de Comunidade foi essencial para o entendimento e aprofundamento da realidade dos quilombos em Minas Gerais: "...Uma comunidade humana é um agregado de pessoas funcionalmente relacionadas que vivem numa determinada localização geográfica, em determinada época, partilham de uma cultura comum, estão inseridas numa estrutura social e revelam uma conscientização de sua singularidade e identidade distinta como grupo."1

Além disto, uma comunidade é também, “... uma coletividade de atores que partilham de uma área territorial limitada como base para o desempenho da maior parte das suas atividades cotidianas...”2

Assim, determinados quilombos podem ser identificados como comunidades, pois, além do fato de serem formados por escravos fugidos, portanto, marginais à sociedade oficial, eram estruturas próprias a quem possuía consciência do seu caráter de fugitivo, logo, singular dentro do contexto escravista, necessitando para manter esta condição de proteção e união junto às outras pessoas na mesma situação.3

Evidentemente, havia também a possibilidade de defesa em caso de tentativas de recondução ao cativeiro. Assim, a identidade de fugitivo unia todo o quilombo em torno de um mesmo ideal: manter a condição escrava afastada de suas vidas, ou pelo menos ter uma espécie diferente de relação com ela.

Com base nestas definições sobre comunidades e mediante uma série de documentos sobre quilombos em Minas Gerais, pode-se inferir que nem todos os grupamentos quilombolas devem ser identificados como comunidades. Assim, foi preciso entender em que ponto esta diferença poderia ser mais sentida. Uma resposta possível estava na relação que os grupos tinham com a terra, ou seja, as relações econômicas que eles desenvolviam. A partir daí, seria possível chegar às suas atividades e interações políticas, sociais e culturais.

Segundo Claude Meillassoux,4 Marx havia estabelecido dois tipos de economias primárias para caracterizar os grupos humanos menos complexos: as hordas e as comunidades agrícolas. O que as diferia seria principalmente o tipo de relação que os homens de cada um destes dois conjuntos estabeleceria com a terra. Para as comunidades agrícolas, a terra seria um meio de trabalho, ou seja, o grupo manteria com a terra uma relação destinada a fazê-la produzir para alimentar a todos. A partir deste tipo de relação, os demais ramos sociais acabariam por sofrer alterações ou adaptações que visassem manter o grupo harmônico e estável. Desta maneira, os quilombos maiores, com população elevada, com economia própria e lideranças, classificados na tipologia como Quilombos Auto Sustentáveis, nada mais são do que Comunidades Agrícolas.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. Mercer, B. E. The American Community. New York: Random House, 1956. p. 27 Apud. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1987. P. 229
2 Parsons, T. The social system. Glencoe, Free Press, 1951, p. 91 Apud. Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1987. P. 229
3 É necessário salientar que estes fugitivos não precisavam ser necessariamente escravos. Poderiam ser brancos, livres, forros, índios, enfim, qualquer um que não estivesse enquadrado na sociedade oficial.
4 Meillassoux, Claude, Mulheres celeiros e capitais, Porto: Ed. Afrontamento, 1976

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