As visitas pastorais, a banda, o menino e o médico.


As visitas pastorais dos bispos diocesanos, que constituíam também motivos de grande regozijo popular e movimentação no arraial.

Em tempos passados, contavam os velhos, visitaram Carmo da Cachoeira D. Silvério Gomes Pimenta, de Mariana e D. João Batista Corrêa Nery, de Pouso Alegre. Criada a diocese de Campanha, tivemos por várias vezes a visita de D. João de Almeida Ferrão, que já contava aqui muitos amigos de tempos anteriores.

Nas vésperas da chegada do bispo, como acontecia em qualquer festa religiosa, os fazendeiros vinham para o arraial, as ruas eram enfeitadas e geralmente preparava-se uma casa que tivesse desabitada, onde se hospedavam o bispo e sua comitiva.

Aproximando-se a hora da chegada, o povo reunia-se nas proximidades da Igreja dos Passos. Ficavam a postos o vigário, o orador, a banda de música e as pessoas convidadas para carregarem o palio. O bispo vinha de Três Corações, a cavalo, com o seu secretário e outras pessoas que o acompanhavam ou iam esperá-lo fora do arraial. Quando a comitiva apontava no alto da rua, começava o foguetório e a banda de música atacava um dobrado. Os cavalos, já cansados, vinham chegando vagarosamente e paravam em frente a porta lateral da igreja. O povo ali se reunia e o orador encarregado de saudar o bispo começava o seu discurso. Terminado este, o bispo agradecia e, após, penetrava na igreja, onde se paramentava e saía acompanhado dos padres presentes, iniciando-se a procissão que o conduzia à Matriz.

O bispo com suas veste completas, a mitra, o báculo, etc., ia, à sua passagem, abençoando o povo. Era uma figura imponente e a pompa de que se revestia impunha-se à alma popular que se sentia humilde ante a personalidade veneranda de seu pastor. Tamanha era a fascinação exercida que nem as crianças a ela escapavam, como o demonstra um fato que me foi contado pelo meu amigo Antenor Barbosa, farmacêutico em Nepomuceno, fato este que, com a devida permissão, vou contar aqui. Disse-me ele que seu irmão Arnaldo, quando criança, tinha idéias de ser padre. Por ocasião de uma visita de D. Nery a Carmo da Cachoeira, foi convidada para abrilhantar as solenidades a banda de música de Nepomuceno, que tinha como diretor seu pai, João Barbosa. O menino Arnaldo veio também, em companhia do pai. Chegando o bispo e formado o cortejo que seguiria para a Matriz, a banda entrou em ação. Influenciado por aquele ambiente, observando D. Nery nas suas vestes imponentes, a irradiar simpatia, Arnaldo Barbosa começou a puxar o paletó do pai, ocupado com o seu instrumento. Tal, porém, foi a inexistência dos puxões,que João Barbosa interrompeu sua parte na música e perguntou, já meio zangado:

"Que é que você quer, menino? Não está vendo que estou ocupado?"

E o Arnaldo, baixinho, ao pai:

"Papai, eu agora não quero ser padre mais não; agora eu quero ser é bispo".

Não sei qual foi a reação do pai. Mas a verdade é que Arnaldo não deu padre nem bispo; deu um grande médico e operador e a sua morte foi uma grande perda para a medicina do Sul de Minas.

Prof Wanderley Ferreira de Rezende

trecho do Livro: Carmo da Cachoeira: Origem e Desenvolvimento.

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