A água como fonte da vida e de nossa história.


Sob o manto do infinito céu azul que envolve Carmo da Cachoeira, os pássaros descobriram, logo ao amanhecer, uma ameixeira, cujos cachos, respondendo ao calor dos últimos dias, amadureceu.

A algazarra que faziam junto das ameixas, amarelinhas e perfumadas, preenchiam o ambiente. Foi ao som desta sinfonia acontecendo num espaço com aroma adocicado, que os moradores despertaram nesta manhã. O local, é onde funciona, hoje, o Gapa Cultural e seu filho, o Projeto Partilha.

O prédio, é uma pequena parte, daquilo que foi, nos anos de 1770, o Sítio Cachoeira, de Manoel Antônio Rates.

Ao tentar levantar dados sobre o local de construção da casa de morada do primeiro morador, um dos questionamentos era:

Que água esta família utiliza? de onde vinha?

Com os dados da localização apontados com segurança por dona Zilah, visitamos os engenheiros da cidade, Pedro Paulo e Rosan. Ambos confirmam que a água da qual a casa apontada se servia, vinha de uma nascente mais acima - (hoje, acima do Supermercado Teixeira Prado, segundo Pedro Paulo). Rosan diz: em frente ao Bar do Chatinho. Ambos, apontam para a mesma direção.

Recordações levam-me a sair do prédio e postar-me no terreno vazio, situado a sua frente...

Desce o morro, vindo da Fazenda dos Coqueiros, o pesquisador, arquiteto, criador de cavalos e historiador, Jorge Fernando Vilela, que para o carro, olha o terreno e vai logo dizendo:
"olhe para aquele monte de entulho. Pouquinho mais acima, brotava a água que servia o quilombo existe aqui. Exatamente neste local. A água ficava dentro dos limites do Quilombo, você sabia? Esta água, descendo para o Ribeirão, chegava a casa dos 'De Rates' ".

Conversa vai... conversa vem... e, entre as explicações técnicas, sobre onde fica o talvegue, suas características e localização. O sol avançou em seu curso.

Jorge Fernando conhece muitas vertentes existentes no Vale da Vargem das Boiadas, local do antigo Quilombo de Carmo da Cachoeira, Minas Gerais. Diz ele: "aquela água apontada pelos engenheiros, segue o 'caminho do vale'. No percurso, são várias as vertentes. O talvegue funciona como uma rede de drenagem. É por onde as águas subterrâneas afloram, chamadas por muitos de nascentes. Uma delas ficava dentro do Quilombo".

São essas nascentes que alimentam o Ribeirão do Carmo com sua Cachoeira dos 'De Rates'. É só olhar o relevo do local que se percebe, a olho nu, a extensão dessa "rede de drenagem". O toque do telefone celular nos chama a realidade e, traz a lembrança de que, o pessoal da fazenda estava aguardando para o café matinal que seria em família, e que deixou de ser matinal. Antes de se despedir, ainda disse: "lembre-se da cratera aberta e da casa que caiu na Rua Olimpio Virgulino. Ela está no caminho das águas, e é por onde a água da chuva corre. Aí, é o local onde o escoamento está concentrado".

Um dia iluminado a todos.

Projeto Partilha - Leonor Rizzi

Próxima matéria: Sílvio, dona Nenê e a crença nos Reis Magos.
Artigo Anterior: Um quarteirão de luz em Carmo da Cachoeira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A organização do quilombo.

A Família Campos no Sul de Minas Gerais.