Ser civilizado era estar ligado ao mundo cristão.

As variadas possibilidades nas relações estabelecidas com o Outro foram classificadas por Sérgio Rouanet em quatro tipos principais: diferencialismo repressivo, igualitarismo abstrato, diferencialismo crítico, e igualitarismo concreto. O primeiro conceito é o que nos auxilia no momento. Trata-se, segundo o autor, da forma mais primitiva das relações com o Outro. Ele, o Outro, é “investido das características de uma estranheza radical” e a comunicação entre ambos torna-se impossível porque o abismo que os separa é identificado como sendo muito grande1.

Esta diferença entre os dois grupos étnicos foi diagnosticada pelos conquistadores como sendo causada por um grande distanciamento civilizacional entre ambos ou ainda pela ausência completa de civilização no Outro conquistado. Neste caso, este foi transformado em um bárbaro sem qualquer elemento cultural que o pudesse assemelhar com o conquistador. Daí a dicotomia entre bárbaros e civilizados.

Ser civilizado é um conjunto de maneiras que a sociedade encara como sendo a forma superior de se portar, crer e fazer2. E civilização é um processo em movimento constante “para a frente”.3 Ainda segundo este autor, civilizado era no século XVIII, “...um dos muitos termos usados ... com os quais os membros da corte gostavam de designar, em sentido amplo ou restrito, a qualidade específica de seu próprio comportamento, e com os quais comparavam o refinamento de suas maneiras sociais, seu “padrão” com as maneiras de indivíduos mais simples e socialmente inferiores...”4

Ao analisar o conceito de civilização utilizando o referencial desenvolvido acima, identificou-se que no século XVIII, ser civilizado era estar ligado ao mundo cristão, ou seja, era ser um filho de Deus, cumpridor de todos os seus deveres não só para com a divindade mas também, por tabela, com seu representante legal na Terra: o rei. Logo, ser civilizado era ser cristão e súdito5.

Estas características de “ser civilizado” são os elementos que Bluteau tinha em mente ao definir os índios do Brasil:

“...Também chamamos índios aos povos da América. No Brasil, dividiram os portugueses aos Bárbaros, que vivem no sertão em índios mansos e bravos. Índios mansos chamam aos que com algum modo de República (ainda que tosca), são mais tratáveis e capazes de instrução. Pelo contrário, chamam índios bravos aos que pela sua natural indocilidade, não tem forma alguma de governo, nem admitem outras leis, que as que lhes dita a sua fera natureza.”6

Estes últimos eram para Bluteau, “...gens fera... cujos ... costumes são mais bravos que as bestas mais bravas...7

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. ROUANET, Sergio Paulo. Identidades e diferenças: uma tipologia. In: Revista Sociedade e Estado. Vol. IX, n. 1-2, jan/dez 1994. p. 80-84.
2. ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Vol. 1: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro,Zahar, 1994. p. 24
3. Idem
4. ibidem p. 54
5. OLIVEIRA, Ricardo. Sertão e nação: Euclides da Cunha e a construção da Brasilidade
sertaneja
. Dissertação de Mestrado. UFRJ. 1998.
6. BLUTEAU, R. op. Cit. Verbete: índios
7. Ibidem verbete: bravo

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