Poema - Repouso

Finda o dia.
Aos poucos, vão buscando os seus ninhos
E vão-se aconchegando, buliçosamente,
A revoada leda dos passarinhos.

Vem a noite.
À mesa, a família se reúne
E, depois da ablução e do perfume,
Encontra, na ceia apetecida,
O repasto, que refaz as forças
E o repouso feliz da sua lida.

Vem o sonho.
E, no sonho, penetro em teu quarto.
Vejo teus discretos movimentos
E minha alma atenta estremece.
A cabeça se inclina docemente
E a boca, levemente entreaberta,
Murmura breve e comovente prece.

Sinto, no ricto de tua boca, a expressão
Feita num doce e doloroso corte
Do beijo dado na veemência louca
E daqueles que, apesar de querer tanto
Neguei, deixando o amargo desencanto
E um gosto de saudade em minha boca.

Todo o sonho sinto envolto na casta assepsia.
Sinto, porque te amo e te acompanho
E te sigo, na dor e na alegria.
Tu vais sempre embalado comigo,
Não sei se és meu amor ou meu amigo.

E depois,
Sondo os segredos do teu corpo amado,
Quanto me sinto envolta nos teus braços,
Sinto-te as mãos nas minhas enlaçadas,
No doce afago que também te faço.

Sinto teus olhos tão negros, tão profundos,
De uma luz e fluidez tamanha,
Que nenhum encanto neste mundo,
Me encanta mais, quando esse olhar me banha.

Trecho da obra:
Encontros e desencontros
de Maria Antonietta de Rezende

Projeto Partilha - Leonor Rizzi

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