O ataque dos Tapuias e o enterro do bandeirante.

Nem tudo estava do lado da sociedade colonial e de suas expedições de conquistas. Os índios aparecem em todos os relatos como um sério obstáculo aos seus intentos. As notícias dadas pelo Alferes José Peixoto da Silva Braga são interessantes para perceber estes contatos violentos entre a “civilização e a barbárie”. Este documento nos inicia também em um outro tema: a preocupação demonstrada em não ferir os índios. Isto não teria sentido se não fosse a possibilidade de escravizá-los. O Outro é diferente não só nas armas que usa, mas também em suas atitudes. É um antropófago bárbaro, mas pode ser útil ao sistema ao se tornar um cativo:

Na noite do terceiro dia avistamos as rancharias do Gentio, e seus fogos: emboscamo-nos no mato para lhe darmos na madrugada, mas sendo sentidos dos cachorros que tinham muitos, e bons, quando os avançamos, nos receberam com os seus arcos e flechas. Não demos um só tiro por ordem do Cabo, de que resultou o fugir-nos quase todo o gentio, o investir um deles ao sobrinho do Cabo com tal ânimo, que lançando-lhe a mão à rédea do cavalo lhe tirou a espingarda da mão, e da cinta o traçado, e dando-lhe com eIa um famoso golpe em um dos ombros, e outro no braço esquerdo, fugiu levando-lhe consigo as armas. Desembaraçado do Tapuia o Paulista correu sobre ele sem mais efeito, que recuperar a espingarda que lhe largou o Tapuia, retirando-se com o traçado. Nesta mesma ocasião outro Tapuia em uma das suas portas feriu levemente no peito com uma flecha a um Francisco Carvalho de Lordelo, e acudindo outro lhe deu na cabeça com um porrete de que caiu logo, caindo-lhe deu outra porretada outro Tapuia, que apareceu de novo, deixando-o já por morto."

É para admirar, que em todo este conflito não fizesse ação alguma mais o nosso Cabo, que o andar sempre ao longe, gritando, e requerendo-nos, que atirássemos só ao vento por não atemorizar o gentio. Foi Deus servido levarmos os ranchos chovendo sobre nós as flechas, e os porretes. Retiraram-se para o mato os Tapuias, mas sem nunca nos perderem de vista, e tanto, que querendo darmos sepultura ao Carvalho persuadidos, a que estaria morto, procuraram em duas avançadas que nos deram, o tirá-lo e comê-lo, e vendo-se rebatidos nos pediram por acenos lhe déssemos ao menos a metade para a comerem, por ser diversa a língua da geral...”¹

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. Notícia 1ª prática - que dá ao P. Manoel Diogo Soares o Alferes José Peixoto da Silva Braga, do que passou na Primeira Bandeira, que entrou ao descobrimento das Minas do Guayases até sair na Cidade de Belém do Grão Pará. In: Taunay, Afonso de E. Relatos Sertanistas. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1981. P. 129

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