Europeus e Incas, povos superiores.

Era exatamente como feras e como bestas que a sociedade mineira via a maioria dos índios do sertão. Um dos maiores problemas que as autoridades tinham no século XVIII, era o que fazer com o gigantesco número de índios não domesticados espalhados pelos territórios do interior, dominando áreas ricas em ouro e próprias para a agricultura e ou pecuária. Sabia-se que somente controlando-os é que a civilização chegaria a estas regiões. Civilização entendida é claro, como controle sobre as terras, sobre a mão-de-obra e sobre as riquezas minerais, feito por um grupo que se considerava superior em detrimento do outro, visto como inferior.

A idéia de inferioridade e de superioridade é o que marcará as relações entre o conquistador e o conquistado. Entretanto, a crença na existência de raças superiores e inferiores, devendo esta última ser controlada ou extinta em nome de melhorias para a outra, ou em nome da expansão de um mundo entendido como civilizado sobre um bárbaro, parece ser bastante antiga e não foi um atributo exclusivo da sociedade Ocidental Cristã. Os Incas, por exemplo, justificavam seu avanço sobre outros povos quase que da mesma forma que os espanhóis o fariam tempos depois: “Diziam-se investidos de uma missão civilizadora junto às populações dos Andes que ainda estavam mergulhadas na barbárie. Acusavam freqüentemente esses povos de praticarem o incesto, de comerem carne humana e de viverem em estado de guerra permanente; e iriam ensinar-lhes as relações de parentesco, o cultivo do milho e a arte de viver em paz que distinguia o “ civilizado” do “ bárbaro” .”¹

A semelhança com as idéias espanholas de anos depois é interessante para a percepção de como uma sociedade encara grupos diferentes de si. Os espanhóis da época das conquistas acreditavam que os índios eram inferiores aos europeus porque não compartilhavam da mesma cultura. Em alguns momentos acreditavam, inclusive, que eles não chegavam a ser homens, ou na melhor das possibilidades, se o fossem seriam bárbaros inferiores pois não falavam as línguas conhecidas e entendidas como civilizadas².

Deveriam ser educados na verdadeira fé a fim de se tornarem homens. Colombo nos serve de exemplo: ele acreditava que os índios precisavam ser levados à Espanha para que aprendessem a falar.410 Na realidade, o “aprender a falar” significava aprender um idioma que ele considerava enquanto tal – as línguas conhecidas e aceitas na Europa. A linguagem indígena não era considerada como possível assim como sua cultura.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. Favre, Henri. A civilização Inca. Rio de Janeiro, Zahar Ed. 1990. p. 26
2. Todorov, Tzvetan . A conquista da América: A questão do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1999, 90

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