Convivência entre quilombolas e índios.

Comparando o esquema do tecoaba apresentado por Assis1 e a série de mapas dos quilombos, podemos perceber as semelhanças. A principal é, sem dúvida, o fato de que tanto um quanto o outro está no interior de uma mata, circundado por ela. É ela que além de fornecer alimentação, serve de barreira e de esconderijo. A segunda semelhança é que as roças, ainda que estejam bastante próximas do núcleo residencial, estão separadas deste (a exceção é o quilombo da Samambaia). Seria uma separação do mundo onde se praticavam as relações sociais daquele destinado ao contato com a natureza e com a terra?


Seja como for, o fato é que comparando os desenhos dos quilombos e a descrição do tecoaba não se pode deixar de pensar nas proximidades espaciais e culturais entre ambos. Esta proximidade pode ser entendida como apenas uma apropriação por parte dos quilombolas de mecanismos funcionais à vida na floresta, como pode indicar também um possível contato cultural maior entre ambas as culturas.

O fato marcante é que índios e quilombolas mantinham contatos e compartilhavam de uma mesma região. Se este compartilhar era feito de maneira pacífica ou não é uma outra questão.

Ainda que os indígenas fizessem parte destas comunidades, não podemos perder de vista que quilombos eram estruturas formadas por escravos fugidos que possuíam consciência de sua condição de cativos. E que a presença destes índios em seu interior passava pela necessidade de convivência em busca de uma maior proteção, e pelas tentativas de conseguir sobreviver fora da sociedade escravista concentradora de terras e homens.

Estas variadas relações dos quilombolas com os escravos, com alguns senhores, com os donos de vendas ou mesmo com grupos indígenas, demonstram que as teias sociais desenvolvidas foram de tal monta que, parte de suas forças, provinha delas. E as autoridades sabiam que para destruí-los somente cortando estas teias, eliminando qualquer tipo de contato e ou ajuda entre os quilombolas e os demais moradores da região. Como nunca conseguiram este intento, os quilombos permaneceram por todo o período escravista.

Onde quer que houvesse escravo, havia um quilombo - real ou imaginário. A existência destas estruturas, quer fossem Auto Sustentáveis ou Dependentes, propiciava uma série de arranjos sociais e de atitudes por parte da população. Uns interessados na manutenção dos quilombos; outros em sua destruição. Este último grupo via nos quilombolas uma ameaça à vida e sobrevivência na região. Em função disto, precisavam ser destruídos a fim de que o projeto civilizador pensado para a Colônia pudesse ser efetivado.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. Assis, Valéria S de. Uma proposta de análise espacial de sítios tupinambá pela abordagem Etnoarqueológica. Comunicação apresentada no IX Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Rio de Janeiro. 22 a 26 de setembro de 1997. (Mapa do Quilombo de um dos braços da Perdição)

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