A agricultura dos quilombolas de Minas Gerais.

Em 1770, uma expedição que circulava pelas imediações da Serra Negra avistou uma grande fumaça. Perceberam que deveria se tratar de um quilombo, porque os índios que restavam na região já estavam no aldeamento de onde o grupo havia saído. Seguiram na direção da fumaça e acabaram por aprisionar um negro que dizia ter fugido do quilombo. Segundo seu depoimento, ele e mais quatro parceiros haviam sido levados a “...uma grande povoação dos mesmos pretos...” dizia ainda que “... há lá grandes roças e canaviais bananas, laranjeiras e descarossadores e muito algodão, que sendo como ele diz é cousa grande...”1

Sabendo-se que a agricultura pressupõe o sedentarismo e um tempo para que a plantação seja feita e depois recolhida, pode-se perceber que estes quilombolas conseguiram, de uma forma ou outra, manter-se num mesmo espaço por amplos períodos de tempos.

Este tempo de fixação em um mesmo local pode ser percebido de maneira mais efetiva em alguns documentos, bastante raros em sua freqüência, onde há citado o período de existência do quilombo. Em 1733 havia um “...quilombo já com famílias por ter dezessete anos de estabelecimento...”2. Os quilombos do Campo Grande, em 1746 tinham mais de vinte anos de existência3. Em 1770, a notícia de um quilombo no Rio da Pomba causou preocupação por ser “... muito grande, e muito antigo...”4

Sobre a população destas estruturas é oportuno lembrar Leroi-Gourhan, para quem a dimensão dos grupos humanos varia de acordo com a relação "...massa alimentar, número de indivíduos e o tamanho da área na qual este grupo vive, não esquecendo é claro, o estágio tecnológico de seu conhecimento..."5

O caso dos quilombos não é diferente, pois a agricultura tenderia a permitir uma maior concentração populacional diante da capacidade em alimentar um grupo maior. Já os grupamentos que não possuíam ou não adotaram, por variadas razões, a agricultura, tenderiam ainda, segundo os relatos da Antropologia, a uma menor complexidade, não só em relação à quantidade de pessoas, mas também às suas condições de vida, sua organização política, social e religiosa. Para estes grupos, a única forma de manutenção seriam os roubos às fazendas e aos habitantes ou viajantes.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1. Carta de Manoel Jesus de Maria para Conde de Valadares. Local: Aldeia da Vila do Pomba . Data: 30.09.1770 - Biblioteca Nacional. Documento 112 - 18,2,6
2. APM SCAPM Cod 15. p. 109v 110
3. APM SCAPM Cod 45 p. 64v 65
4. Arquivo Conde de Valadares. Biblioteca Nacional , Seção de manuscritos. Cod. 18,2,6 doc. 111
5. Leroi-Gouhan. O gesto e a palavra. Lisboa, Ed. 70. 1978.

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