Stedman e a imagem do negro armado e em guarda.

Com relação as imagens pictóricas sobre escravos aquilombados, infelizmente o universo é muito pequeno tanto no Brasil como em outras regiões escravistas. Para o Suriname existem duas imagens feitas como ilustração de um livro publicado em 1796 e intitulado “Narrativa de uma expedição de cinco anos contra os negros revoltosos do Suriname” de autoria de John Stedman1. Seu autor era um oficial da Brigada Escocesa do Exército Holandês, voluntário na destruição dos quilombos que ameaçavam o sistema escravista no Suriname.
Além de contar detalhes da expedição, como por exemplo, as doenças que atacavam a expedição, a falta de preparo técnico e militar dos soldados e outras dificuldades, Stedman relata o seu casamento com uma escrava local. Todavia, são as duas imagens referentes a quilombolas que nos interessam no momento. Em uma delas, intitulada “Um negro rebelde armado e em guarda”, percebe-se elementos que tradicionalmente estão associados a grupos considerados pelos europeus como não civilizados: o negro representado está nu, apenas porta uma pequena tanga e está descalço. Como armas carrega na cintura um machado e na mão uma arma de fogo, demonstrando o perigo em potencial para a população e, portanto, justificando a expedição. Ao fundo do quadro pode-se identificar dois outros negros rebelados. Ambos carregam uma espécie de lança, arma também relacionada a grupos tidos como primitivos. Em primeiro plano, aos pés do negro está um crânio. Estaria o desenhista tentando mostrar a crueldade dos quilombolas?
Ou quem sabe poderia ser uma demonstração de que os europeus estavam conseguindo eliminar o perigo representado por eles? São suposições, mas é curioso notarmos a presença de crânios na outra imagem referente a um outro escravo rebelde, também no mesmo livro.

Trecho de um trabalho de Marcia Amantino.

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1 Esta obra é analisada no livro de PRATT, Mary Louise. Op. Cit. p. 164 e ss

Figura: “Um negro rebelde armado e em guarda” Fonte: PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império: relatos de viagem e transculturação. São Paulo: EDUSC, 1999, p. 164

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