A percepção da africanidade pela população e pelas autoridades.


“...Estes [quilombolas] e os domésticos vendo se diminuir o número de brancos e que seguem para fora das Minas certamente nos cometem e seremos por falta de forças entregues em suas mãos sem esperança de remédio vindo-se a seguir terrível perda de umas Minas que pelos seus haveres de ouro e pedras preciosas faz a nossa nação temida ...”1

A clara associação entre escravos e africanos presente neste e em outros documentos, remete à questão de como a africanidade era percebida pela população e pelas autoridades mineiras. Via de regra, ela era perigosa para o sistema.

O Conde de Assumar tinha isto muito claro em suas análises. Para ele, um dos grandes perigos para a eclosão de revoltas escravas, era as uniões possíveis entre os cativos. Para evitar isto, determinou que não fossem aceitos padrinhos negros para os cativos batizados, pois, “... a maior parte dos negros que se batizam tomam por seus padrinhos outros que nas suas terras são de ... mais autoridades... e parentes dos régulos que os governam a quem reconhecem algum gênero de superioridade e lhes ficam tão subordinados que não somente lhes obedecem quanto lhes é possível muitas vezes lhes entregam os jornais de seus senhores sem temer o castigo que por esta causa recebem, e são deles favorecidos nas suas fugidas...”2.

Uma das piores conseqüências destas relações entre africanos era, para Assumar, a possibilidade deles manterem entre si relações de hierarquias e de domínio, favorecendo assim, a obediência dos cativos e facilitando a formação de quilombos:

“... tendo-se considerado os grandes prejuízos que sucedem de terem os negros ou negras escravos ou forros domínio algum sobre outros negros, ou negras e de fazer atos por donde estes reconheçam algum gênero de subordinação aos primeiros a experiência tem mostrado que nas vilas e mais partes onde há muitos negros juntos se encontram alguns que foram filhos ou parentes dos régulos das suas pátrias que indiferentemente os vendem: a estes tais tomam quase todos por padrinho no sacramento do batismo e matrimônio por cuja causa lhes tem subordinação e respeito o que redunda em fazerem-se capatazes e formar séquito metendo-se pelos matos em quilombos governados por eles...”3

Estas relações perigosas entre africanos podiam ser vistas também, segundo Assumar nas vendas. Lá, mulheres africanas forras, consideradas pelo Governador como depravadas, favoreciam os negros fugidos ou não:

“...para melhor convidarem o concurso dos negros da sua nação,,, e recolhendo de noite negros fugidos roubando-os e fazendo-lhes gastar os jornais de seus senhores... aos quilombos de negros fugidos que nas casas destas depravadas fazem seus ajuntamentos...”4.


1 APM SC 218 fls. 191-193
2 APMSC - SG Cód. 04 fls.740 - 748
3 APMSC - CMOP Cód. 06 fls. 17 - 19.
4 APMSC - SG Cód. 04 fls. 740 - 748

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